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FRANCISCO ROSI

CALOU-SE O CINEASTA QUE DENUNCIAVA O SISTEMA

Um dos mais importantes cineastas do “filme político” dos anos 1960 e 1970, o napolitano Francesco Rosi faleceu este sábado em Roma, aos 92 anos de idade.

Palma de Ouro em Cannes, em 1972, por O Caso Mattei e Leão de Ouro em Veneza, dez anos antes, com As Mãos Sobre a Cidade, Rosi adaptou igualmente ao ecrã Gabriel García Márquez, Leonardo Sciascia ou Primo Levi, bem como a vida dos lendários bandidos Salvatore Giuliano ou Lucky Luciano.

A melhor homenagem que podia ser feita ao realizador terá sido a que lhe foi prestada pelo jornalista napolitano Roberto Saviano, o autor do best-seller sobre a mafia Gomorra: “Ninguém soube retratar o poder como Francesco Rosi.”

Ao longo de uma carreira iniciada após a II Guerra Mundial, em pleno neo-realismo italiano, Rosi trabalhou regularmente no que chamava de “cine-inquérito” ou “cinema-investigação”. O cruzamento de elementos oriundos do documentário e sugeridos pelo neo-realismo com técnicas e narrativas ficcionais ou ficcionadas sobre temas da actualidade tornou-se central à sua geração de realizadores – Pier Paolo Pasolini, os irmãos Paolo e Vittorio Taviani, Elio Petri ou Gillo Pontecorvo – para quem fazer cinema era intervir activamente na sociedade e denunciar a corrupção e o mal-estar que atravessavam a Itália do pós-guerra.

Filho de burgueses napolitanos, nascido em 1922, o cineasta estudaria Direito, mas cruzou-se desde logo no liceu com as duas vertentes que sempre nortearam a sua carreira. Luchino Visconti, realizador de O Leopardo e A Terra Treme, e o futuro presidente de Itália, Giorgio Napolitano, foram seus colegas de turma; ou seja, a arte e a política desde logo entrelaçadas.

No obituário do jornal Corriere della Sera, Rosi é definido como “mestre do filme de denúncia”. Exemplos possíveis são As Mãos Sobre a Cidade (1963), sobre a corrupção municipal no desenvolvimento urbano de Nápoles, com Rod Steiger no papel principal, ou Cadáveres Incómodos (1976), baseado num romance de Leonardo Sciascia, onde um polícia honesto (Lino Ventura) investiga uma série de crimes que descobre terem uma conexão política. Mas talvez o mais recordado de todos seja O Caso Mattei (1972), sobre a morte suspeita do presidente de uma petrolífera italiana que desafiou as multinacionais do petróleo, interpretado por Gian Maria Volonté, um dos actores italianos mais presentes neste “cinema político”.

Nas palavras do director da Bienal de Veneza, Paolo Baratta: “Através do seu cinema caracterizado por um grande envolvimento civil, Francesco Rosi foi um dos intérpretes mais extraordinários da Itália moderna, capturando e contando as suas contradições e tensões profundas”

Embora Rosi nunca tenha sido apenas um cineasta político – como o provou por exemplo O Momento da Verdade, filme de 1965 sobre um camponês andaluz que se torna toureiro – esse lado da sua ficção foi praticamente abandonado nos últimos anos da sua carreira. Em 1984 filmou a ópera Carmen, com Julia Migenes-Johnson e Plácido Domingo nos papéis principais, e em 1987 o romance de Gabriel Garcia Márquez Crónica de uma Morte Anunciada, com um elenco multinacional encabeçado por Rupert Everett (foi o seu último filme a estrear em Portugal). A sua última realização foi La Tregua, com John Turturro, adaptação de Primo Levi concluída em 1997.

Rosi fora homenageado ainda em vida pelos festivais de Berlim e Veneza, que lhe entregaram prémios honorários pelo conjunto da sua carreira respectivamente em 2008 e 2012, embora o grosso da sua obra não fosse tão recordado como mereceria. O cineasta estava acamado há várias semanas na sequência de uma bronquite e segundo o Corriere della Sera morreu durante o sono, na madrugada de sexta para sábado.

JORGE MOURINHA ” PÚBLICO ” ( PORTUGAL)

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